Eleitores brasileiros residentes fora do país enfrentam dificuldades para comparecer às urnas no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, marcado para 25 de outubro. A taxa de abstenção no primeiro turno chegou a 62,7%, a maior desde 2010, e mobiliza iniciativas de apoio logístico em diversas capitais estrangeiras.
Causas da alta abstenção entre brasileiros no exterior
O número de eleitores cadastrados no exterior atingiu recorde histórico, com 916,5 mil brasileiros aptos a votar, um aumento de 31,8% em relação a 2022. Contudo, apenas 341,8 mil compareceram às seções distribuídas em 186 cidades de 134 países.
Especialistas apontam que a infraestrutura eleitoral fora do Brasil não acompanhou o crescimento inesperado de eleitores. Enquanto o território nacional conta com uma rede capilar de urnas eletrônicas, nas cidades estrangeiras os postos de votação são escassos e muitas vezes localizados a centenas de quilômetros dos domicílios.
Além da distância, os custos de deslocamento e hospedagem representam barreiras significativas. Uma viagem de ida e volta, somada ao pernoite, pode ultrapassar 120 libras (cerca de R$ 800), valor proibitivo para muitas famílias.
O intervalo de apenas três semanas entre os turnos também dificultou o planejamento, encarecendo ainda mais as despesas de transporte e acomodação.
Iniciativas de apoio logístico surgem nas redes sociais
Para enfrentar esses obstáculos, brasileiros em diferentes países criaram redes de solidariedade que oferecem carona, hospedagem e informações práticas. O projeto “Voto Sem Fronteiras”, idealizado por Tamara Menezes, residente na Alemanha, é um exemplo emblemático.
Por meio de um formulário fixado no perfil do Instagram, o projeto conecta quem precisa de apoio logístico a quem tem disponibilidade de carro ou quarto. Até o momento, 90 cadastros foram registrados, abrangendo desde ofertas de estadia até vagas em veículos.
- Preenchimento de formulário com dados de contato e localização;
- Correspondência entre oferta e demanda de carona ou hospedagem;
- Coordenação de horários e pontos de encontro;
- Confirmação de participação sem envolvimento político.
O caso de Felipe Costa, programador que vive em Liverpool, ilustra a eficácia da iniciativa. Quando sua seção foi transferida para Edimburgo, ele optou por votar em Londres para que sua esposa pudesse exercer o direito ao voto. Na segunda rodada, ele encontrou uma brasileira disposta a hospedá-lo em Edimburgo e outra que ofereceu carona à esposa em Londres, eliminando os custos que antes o impediam.
Na Espanha, a técnica de turismo Giselle Rocha reuniu amigas em Málaga para criar um grupo de caronas via WhatsApp. O grupo passou a organizar viagens compartilhadas para eleitores espalhados pelo país, ampliando o alcance da ajuda e inspirando ações semelhantes em outras cidades espanholas.
Nos Estados Unidos, a brasileira Maria Ribeiro também se mobilizou, oferecendo carona a compatriotas que precisam chegar à seção de Nova York. Essas ações demonstram que a solidariedade transnacional pode suprir lacunas que a própria estrutura eleitoral não conseguiu preencher.
Perspectivas para o segundo turno e impactos esperados
A Justiça Eleitoral garante que quem se absteve no primeiro turno ainda pode votar no segundo, pois cada turno é independente. Essa regra abre espaço para que as iniciativas de apoio logístico aumentem a participação na fase final da disputa.
Especialistas acreditam que a combinação de redes de carona, hospedagem e informação pode reduzir significativamente a taxa de abstenção. Mesmo que o número de eleitores cadastrados continue a crescer, a disponibilidade de suporte prático pode tornar a votação mais acessível.
Além do efeito imediato nas urnas, essas mobilizações fortalecem a sensação de pertencimento e cidadania entre os brasileiros expatriados. Quando eleitores percebem que há uma comunidade disposta a ajudá‑los, a motivação para participar do processo democrático tende a aumentar.
O professor de Geografia Política da UnB, Daniel Abreu, ressalta que a falta de infraestrutura não deve ser desculpa para a exclusão de eleitores. Ele sugere que o TSE invista em parcerias com consulados e em pontos de votação mais distribuídos, reduzindo a necessidade de deslocamentos longos.
Enquanto as autoridades avaliam melhorias logísticas, as iniciativas de base continuam a se expandir. O “Voto Sem Fronteiras” já planeja ampliar sua presença para países da América Latina, onde a concentração de eleitores brasileiros também é alta.
Em síntese, a mobilização de brasileiros no exterior demonstra que, apesar das barreiras geográficas e financeiras, a vontade de participar da democracia pode ser canalizada por meio de soluções criativas e colaborativas. O sucesso dessas ações no segundo turno poderá servir de modelo para futuras eleições, consolidando um novo padrão de engajamento cívico transnacional.








