Na quarta‑feira, 14 de julho, o Senado brasileiro aprovou por 75 votos a 1 a emenda constitucional que elimina a escala de trabalho 6×1 e reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem corte salarial. A medida entrou em destaque na imprensa internacional já na quinta‑feira, 15, sendo analisada como um marco nas políticas trabalhistas e como estratégia eleitoral de Luiz Inácio Lula na reta final das eleições.
Contexto da Aprovação no Congresso
A votação ocorreu após intensos debates que mobilizaram partidos de todo o espectro político. O texto prevê que a jornada será reduzida para 42 horas em até 60 dias após a promulgação e chegará a 40 horas um ano depois, com a sanção esperada para a semana seguinte.
O apoio de Flávio Bolsonaro (PL), que inicialmente se opunha ao projeto, foi decisivo para o resultado. O senador afirmou que mudou de posição ao perceber o apoio da maioria dos trabalhadores e ao considerar a proposta um elemento de equilíbrio nas políticas de governo.
Além de Flávio, o único voto contrário veio de Hamilton Mourão, ex‑vice‑presidente, que manteve sua posição contra a redução da carga horária. Essa divergência ressaltou a polarização política em torno da reforma.
Repercussão da Mídia Internacional
Agências de notícias como Reuters, Associated Press (AP) e o jornal britânico The Guardian cobriram a votação como um “marco trabalhista”. Cada veículo destacou diferentes aspectos da medida, mas todos apontaram para sua importância no cenário eleitoral.
- Reuters ressaltou que a proposta recebeu apoio amplo, inclusive de Flávio Bolsonaro, e a classificou como a maior reformulação dos direitos trabalhistas em décadas.
- AP descreveu a aprovação como parte da ofensiva de Lula para ganhar terreno sobre Flávio, inserindo-a em um pacote de medidas como corte de impostos sobre combustíveis e perdão de dívidas de microempresas.
- The Guardian destacou que a emenda proíbe a semana de seis dias, beneficiando até 30 milhões de trabalhadores, e interpretou a votação como aposta de Lula para reverter a vantagem de seu adversário no primeiro turno.
Essas análises reforçaram a ideia de que a mudança tem um duplo objetivo: melhorar as condições laborais e servir de trunfo político para o candidato do PT nas eleições de 25 de outubro.
Comparação com Reformas Trabalhistas na América Latina
O Brasil não está sozinho na tendência de redução da jornada. Vários países da região adotaram medidas semelhantes nos últimos anos, criando um contexto regional que favorece a discussão sobre qualidade de vida e produtividade.
- Chile aprovou, em 2023, a Lei das 40 Horas, que estabeleceu jornada de 40 horas semanais para todos os trabalhadores cobertos pelo Código do Trabalho, sem redução salarial.
- México, sob a presidente Claudia Sheinbaum, aprovou em fevereiro a proposta de reduzir a jornada de 48 para 40 horas até 2030.
- Colômbia reduziu a jornada para 42 horas semanais, seguindo uma política de flexibilização.
- Argentina, ao contrário, tem sinalizado a possibilidade de ampliar a jornada semanal, que atualmente pode chegar a 48 horas, sob a liderança de Javier Milei.
Essas iniciativas mostram que a discussão sobre a carga horária está em alta na região, mas cada país adapta a medida ao seu contexto econômico e político.
Implicações Políticas para a Campanha Eleitoral
A aprovação da emenda ocorre a menos de duas semanas do segundo turno das eleições presidenciais. Para Lula, a medida representa um reforço de seu discurso de defesa dos trabalhadores e de combate às desigualdades.
Flávio Bolsonaro, ao mudar de postura, tentou equilibrar sua imagem de defensor do empresariado com a necessidade de não se afastar do eleitorado popular. Ele ainda propôs que empregadores e empregados negociem horários de forma mais flexível, argumentando que isso daria maior liberdade ao trabalhador.
Entretanto, a proposta também gerou preocupação entre empresários, que temem aumento de custos trabalhistas e queda de produtividade. Essa tensão reflete o clássico dilema entre direitos sociais e competitividade econômica.
O apoio de Lula a essa reforma pode consolidar sua base de eleitores operários, ao passo que a oposição tenta usar o tema para acusar o governo de “manobras eleitorais”. O debate, portanto, se estende além da esfera trabalhista e adentra a estratégia de campanha.
Com a promulgação prevista para a próxima semana, a medida ainda será analisada pelos tribunais e pelos órgãos de fiscalização. Caso seja confirmada, a transição para a jornada de 40 horas exigirá adaptações nas empresas, especialmente nas indústrias que dependem de turnos extensos.
Especialistas apontam que a redução da jornada pode impulsionar a produtividade, ao melhorar o bem‑estar dos trabalhadores, mas alertam que a implementação deve ser acompanhada de políticas de qualificação e de incentivos à automação.
Em síntese, a aprovação da emenda constitucional encerra a escala 6×1, abre caminho para a jornada de 40 horas e, simultaneamente, se torna um elemento central na disputa eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro. O impacto será observado tanto no mercado de trabalho quanto nas urnas.








