O assessor internacional do presidente Lula, Celso Amorim, afirmou que o plano denominado “Escudo das Américas”, promovido pelo ex‑presidente dos Estados Unidos Donald Trump, busca impor um cerco ao Brasil sob o pretexto enganoso de combater o crime organizado. A declaração foi feita em entrevista concedida na última semana, durante um encontro de diplomatas no Palácio do Planalto, em Brasília. Amorim descreveu a iniciativa como uma tentativa de dominação política e militar na América Latina.
O que é o “Escudo das Américas” e como ele foi estruturado
O “Escudo das Américas” foi anunciado por Trump em meados de 2023 como uma coalizão de países latino‑americanos alinhados ao seu governo. O objetivo oficial, segundo a Casa Branca, seria criar um mecanismo conjunto para identificar e sancionar facções criminosas que operam transnacionalmente. Contudo, críticos apontam que a medida serve como fachada para expandir a influência militar dos EUA na região.
Entre os signatários do acordo, figuram presidentes como Javier Milei da Argentina, Abelardo de la Espriella da Colômbia e Nayib Bukele de El Salvador. Esses líderes aceitaram o documento em parte por alinhamento ideológico com Trump e em parte por interesses estratégicos, como a obtenção de recursos financeiros ou a garantia de apoio em questões de segurança interna.
O acordo, firmado no mês passado, lista 24 organizações criminosas consideradas “ameaças compartilhadas”. Dentre elas, destacam‑se duas das maiores facções brasileiras: o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Ambas foram rotuladas como organizações terroristas pelos Estados Unidos, medida que gerou forte resistência do governo brasileiro.
Repercussões políticas e econômicas no Brasil
Para o governo Lula, a classificação das facções como terroristas representa mais do que um rótulo simbólico. Amorim alertou que a medida pode abrir precedentes para intervenções militares semelhantes às ocorridas na Venezuela e na Colômbia nos últimos anos. Ele enfatizou que o Brasil ainda não aceita que uma potência externa imponha sanções que afetem a soberania nacional.
Além da questão de segurança, o “Escudo das Américas” trouxe consigo dois “tarifaços” anunciados pela Casa Branca contra produtos brasileiros. Os tarifários, que atingem setores como carne bovina e soja, foram justificados pelos EUA como retaliação ao que chamam de “práticas desleais”. Analistas brasileiros apontam que a motivação real foi política, buscando pressionar o presidente Lula durante o período eleitoral.
- Tarifa sobre carne bovina – aumento de 20% nos impostos de importação;
- Tarifa sobre soja – elevação de 15% nas tarifas de entrada;
- Possível extensão a produtos manufaturados caso as negociações não avancem.
Negociadores do Brasil afirmam que os EUA desconsideraram dados que mostram superávit comercial brasileiro, usando informações equivocadas para legitimar as sanções. Essa estratégia, segundo o assessor, visa “intimidar” o presidente Lula e influenciar o cenário político interno.
Posicionamento dos países latino‑americanos e estratégias de apoio
Embora a maioria dos países latino‑americanos tenha mantido relações diplomáticas amistosas com o Brasil, alguns decidiram apoiar a iniciativa americana por razões específicas. Equador, Paraguai e Panamá, por exemplo, viram no acordo uma oportunidade de garantir recursos financeiros e evitar possíveis intervenções militares em seus territórios.
Outros líderes, como Milei, Bukele e Espriella, assinaram o documento quase que automaticamente, refletindo um alinhamento ideológico com a agenda de Trump. Essa postura gerou críticas de setores progressistas da região, que veem a coalizão como um instrumento de neocolonialismo.
Amorim ressaltou que, apesar das divergências, os países da região ainda buscam manter boas relações comerciais e políticas com o Brasil. No entanto, ele adverte que a aceitação de medidas impostas pelos EUA pode comprometer a autonomia estratégica da América Latina.
Em entrevista ao Brics, o presidente Lula e o assessor Amorim reforçaram que a rotulação de organizações como terroristas não resolve o problema do crime organizado. Eles defenderam que a solução deve passar por políticas públicas integradas, investimentos em segurança e cooperação internacional baseada no respeito mútuo.
O debate continua em torno da efetividade das sanções econômicas e da legitimidade das acusações de crime transnacional. Enquanto isso, a população brasileira acompanha de perto as implicações desses movimentos nas exportações, nos preços internos e na percepção internacional do país.
Em síntese, o “Escudo das Américas” emerge como mais um capítulo da disputa geopolítica entre grandes potências e nações emergentes. O Brasil, ao lado de seus aliados, demonstra resistência a pressões externas que ameaçam sua soberania e seu modelo de desenvolvimento.








