A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concedeu nesta sexta‑feira, 4 de maio, autorização excepcional para a importação e uso de um fármaco ainda em fase experimental, destinado ao influenciador e especialista em aviação Lito Sousa, diagnosticado com a rara Doença de Creutzfeldt‑Jakob.
Contexto da autorização e o programa de uso compassivo
O pedido foi encaminhado pelo Hospital Israelita Albert Einstein, que acompanhou o caso clínico e solicitou à Anvisa a liberação para um tratamento ainda não aprovado no Brasil. A agência avaliou o pedido com base no critério de uso compassivo, que permite a disponibilização de medicamentos em desenvolvimento quando não há alternativas terapêuticas reconhecidas.
Segundo a própria Anvisa, a doença em questão evolui de forma rápida, letal e irreversível, o que justificou a urgência da medida. Além disso, a falta de um patrocinador ou representante legal da empresa produtora nos limites nacionais reforçou a necessidade de um procedimento excepcional.
A importação será realizada pela equipe de apoio de Lito, que já recebeu instruções detalhadas sobre o manuseio, armazenamento e administração do composto. O medicamento ainda não passou por ensaios clínicos em humanos, permanecendo em fase pré‑clínica, mas já demonstrou eficácia em modelos animais.
Entendendo a Doença de Creutzfeldt‑Jakob e suas implicações
A Doença de Creutzfeldt‑Jakob (DCJ) integra o grupo das chamadas doenças priônicas, patologias neurodegenerativas provocadas por príons – proteínas mal dobradas que se acumulam no cérebro e desencadeiam a degeneração dos neurônios.
Os príons são partículas infecciosas que não contêm material genético, mas alteram a conformação de proteínas saudáveis, gerando um efeito dominó que compromete a estrutura cerebral. Essa característica confere às doenças priônicas um perfil singular, distinto de infecções virais ou bacterianas.
Os sintomas iniciais são frequentemente inespecíficos, confundindo-se com quadros de demência, Alzheimer ou Huntington. Entre os sinais mais comuns, destacam‑se:
- Perda de memória de curto prazo e dificuldade de concentração;
- Alterações de comportamento, como irritabilidade e depressão;
- Problemas de coordenação motora e gaitas instáveis;
- Insônia prolongada e episódios de convulsões;
- Paralisia facial progressiva.
A progressão da doença é notoriamente acelerada, levando à incapacidade total em poucos meses após o aparecimento dos primeiros sinais. Globalmente, a incidência varia entre 1 e 2 casos por milhão de habitantes ao ano, sendo que o Brasil registrou 1.576 notificações suspeitas entre 2005 e 2021, segundo o Ministério da Saúde.
Expectativas, desafios e o caminho à frente
Lito Sousa revelou em entrevista ao canal “Aviões e Músicas” que, no momento do diagnóstico, suas chances de sobrevivência eram praticamente nulas. Hoje, ele afirma que a perspectiva aumentou para 0,1 %, um salto significativo, ainda que modesto, que alimenta a esperança de que o medicamento chegue em suas mãos em breve.
A empresária Mila Seidl, esposa de Lito, compartilhou em vídeo que a empresa biotecnológica norte‑americana responsável pelo composto deu sinal positivo para o uso compassivo. Ela estimou que a importação levará entre sete e nove dias, prazo que inclui trâmites aduaneiros e a preparação da equipe médica.
Especialistas alertam que, embora o estudo em animais seja avançado, a transição para seres humanos traz riscos imprevisíveis. A ausência de dados de segurança em humanos exige monitoramento intensivo, além de protocolos de consentimento rigorosos.
Se o tratamento provar eficácia, Lito poderá se tornar o primeiro paciente a receber a droga em território nacional, abrindo caminho para futuros ensaios clínicos e possivelmente acelerando a aprovação regulatória. Por outro lado, falhas ou efeitos adversos graves poderiam retardar todo o processo de desenvolvimento dessa classe de medicamentos.
Enquanto isso, a comunidade médica acompanha de perto o caso, reconhecendo que a transparência nas etapas de importação, administração e acompanhamento será crucial para gerar confiança tanto entre pacientes quanto entre autoridades sanitárias.
Em suma, a autorização da Anvisa representa um marco na política de uso compassivo no Brasil, demonstrando flexibilidade diante de situações clínicas extremas e reforçando o compromisso de buscar alternativas para doenças ainda sem cura.








