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Nevasca incomum cobre o Deserto do Atacama e interrompe observatórios no Chile

Em agosto de 2023, uma sequência de tempestades de inverno provocou uma nevasca rara e extensa no Deserto do Atacama, no norte do Chile, região reconhecida como o lugar mais seco do planeta. O fenômeno cobriu de neve áreas que vão da Cordilheira dos Andes até a costa do Oceano Pacífico, obrigando o observatório ALMA e outras instalações científicas a suspender temporariamente suas atividades.

Origem meteorológica da nevasca

Segundo o cientista atmosférico René Garreaud, da Universidade do Chile, o evento foi desencadeado por um cutoff low, um sistema de baixa pressão segregado que se desprendeu de um fluxo atmosférico de grande escala. Esse tipo de sistema pode permanecer estacionário sobre uma região por vários dias, puxando umidade de áreas distantes e prolongando as precipitações.

O cutoff low encontrou um cenário favorável devido ao fortalecimento do fenômeno El Niño, que enfraquece a alta pressão subtropical do Pacífico. Com a barreira natural enfraquecida, as massas de ar úmido avançam para latitudes normalmente protegidas pela aridez do Atacama.

  • Formação do corte de baixa pressão
  • Arraste de umidade de regiões oceânicas
  • Estacionamento prolongado sobre o deserto
  • Intensificação pelo El Niño

Na cidade costeira de Taltal, foram registrados quase 40 mm de chuva em três dias – cerca de dez vezes a média anual histórica. Eventos desse tipo são observados apenas algumas vezes por década, mas a tendência indica maior frequência em anos de El Niño forte.

Impactos nos observatórios astronômicos

O ALMA, localizado a cerca de 5 mil metros de altitude no planalto de Chajnantor, normalmente se beneficia de ar extremamente seco e céu livre de nuvens, condições essenciais para a observação de ondas milimétricas. Quando a nevasca chegou, o terreno árido transformou‑se em um manto branco, e ventos fortes aumentaram o risco de danos ao equipamento.

Para proteger seus sensores, o ALMA ativou o modo de sobrevivência, recolhendo antenas e reduzindo as operações ao mínimo. Outros grandes observatórios ao sul de Antofagasta também interromperam suas atividades, suspendendo projetos de pesquisa que dependem de condições climáticas estáveis.

Apesar da interrupção temporária, os cientistas consideram o episódio um lembrete da vulnerabilidade das infraestruturas de alta altitude a eventos climáticos extremos, reforçando a necessidade de planos de contingência mais robustos.

Consequências para a população local

Além do impacto científico, a nevasca trouxe sérios problemas para as comunidades do norte chileno. O excesso de água provocou enxurradas e deslizamentos de terra em áreas que raramente enfrentam esse tipo de risco.

Segundo o Serviço Nacional de Prevenção e Resposta a Desastres (SENAPRED), milhares de pessoas foram afetadas, e centenas de residências sofreram danos graves. As autoridades mobilizaram equipes de socorro para garantir o acesso a áreas isoladas e prestar assistência emergencial.

O evento também gerou desafios logísticos, como bloqueios de estradas principais que conectam cidades costeiras ao interior, dificultando o transporte de suprimentos e a evacuação de áreas de risco.

Em resposta, o governo chileno anunciou um plano de reforço de infraestrutura de drenagem e monitoramento climático, visando reduzir os efeitos de futuros episódios semelhantes.

Perspectivas climáticas para o Atacama

Especialistas apontam que o aumento da frequência de eventos como o de agosto pode estar ligado a mudanças climáticas globais, que intensificam fenômenos como o El Niño. A combinação de temperaturas oceânicas mais elevadas e padrões de circulação atmosférica alterados pode tornar o deserto mais vulnerável a precipitações intensas.

Estudos em andamento buscam modelar cenários futuros para o Atacama, avaliando como a variabilidade climática pode impactar tanto a ciência de ponta quanto as comunidades locais. Enquanto isso, observatórios como o ALMA continuam a adaptar seus protocolos operacionais para lidar com a crescente incerteza climática.

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