O oftalmologista Cláudio Lottenberg, de 66 anos, foi mencionado como possível futuro ministro da Saúde caso Flávio Bolsonaro vença a eleição presidencial em 2026. Em entrevista exclusiva concedida à Folha de S.Paulo, ele descreve a condução da pandemia de Covid-19 pelo governo anterior como um “capítulo superado” e destaca sua intenção de adotar uma gestão técnica e baseada em evidências científicas.
Perfil e trajetória de Cláudio Lottenberg
Lottenberg possui uma carreira que atravessa o setor público e privado. Atuou como secretário municipal da Saúde de São Paulo em 2005, durante a gestão do então prefeito José Serra (PSDB), e posteriormente presidiu o Hospital Israelita Albert Einstein, uma das instituições de saúde mais renomadas do país.
Além disso, comandou a UnitedHealth Group no Brasil, ampliando sua experiência em gestão de redes de saúde e em políticas de cobertura médica. Desde 1º de setembro, ele está licenciado da presidência do Conselho Deliberativo do Einstein, medida adotada para garantir neutralidade política diante da possível indicação ao Ministério.
O médico enfatiza que sua formação e vivência o habilitam a conduzir uma agenda de saúde que privilegie a ciência. “Eu sempre acreditei que a decisão deve se basear em evidências, não em ideologias”, afirma, reforçando seu compromisso com uma política de saúde orientada por dados.
Desafios e propostas para a Saúde no governo de Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro tem declarado que pretende uma gestão técnica, focada na qualidade da informação e no uso eficiente dos recursos disponíveis. Lottenberg compartilha dessa visão, destacando que a prioridade será levar o SUS ao paciente, utilizando modelos digitais e mecanismos de antecipação de problemas.
Entre as propostas apresentadas, o médico elenca três áreas estratégicas:
- Fortalecimento da atenção básica: tornar os serviços mais resolutivos e reduzir a necessidade de encaminhamentos.
- Integração de dados clínicos: implantar um prontuário eletrônico único que facilite a troca de informações entre unidades de saúde.
- Otimização de recursos financeiros: priorizar investimentos em tecnologias que gerem economia a longo prazo.
Lottenberg também ressalta a importância de não descartar as iniciativas já desenvolvidas pelo governo Lula, como a Secretaria de Informação e Saúde Digital, mas sim aprimorá‑las. “Construir significa melhorar, não destruir”, afirma.
Quanto ao orçamento, ele acredita que, embora os recursos não sejam ilimitados, é possível fazer mais com o que há, desde que haja uma alocação baseada em prioridades claras e evidências de impacto.
Relação com a base conservadora e o legado da pandemia
Um dos maiores desafios apontados por Lottenberg é lidar com a base conservadora do Congresso, que mantém posições rígidas sobre temas como direitos sexuais, reprodutivos e o uso de vacinas. O médico defende o diálogo como ferramenta principal.
Ele cita um caso pessoal envolvendo uma paciente Testemunha de Jeová que precisou de transfusão de sangue, ressaltando que o respeito às crenças deve ser equilibrado com a necessidade de garantir a saúde do paciente. “Você não pode impor, mas pode convencer com ciência e empatia”, explica.
Sobre a condução da pandemia por Jair Bolsonaro, Lottenberg prefere não aprofundar o assunto, classificando‑o como um capítulo que já ficou para trás. Para ele, o foco deve estar no futuro, na prevenção de novas crises e na consolidação de um sistema de saúde resiliente.
Em resumo, caso seja nomeado ministro, Lottenberg promete uma gestão que combine conhecimento técnico, uso racional de recursos e diálogo construtivo com diferentes setores da sociedade, buscando transformar a saúde pública brasileira em um modelo mais eficiente e baseado em evidências.








