Um grupo de pesquisadores brasileiros utilizou a técnica que garantiu o Nobel de Medicina em 2026 para investigar o funcionamento dos neurônios em tempo real. O experimento foi divulgado na segunda‑feira, 5 de maio, durante um simpósio da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto. A pesquisa destaca como a combinação de luz e genética pode revelar processos cerebrais ainda desconhecidos.
A origem da optogenética e sua conexão com o Nobel
A optogenética surgiu na década de 2000, quando cientistas combinaram canais de luz de algas com ferramentas genéticas para controlar a atividade neuronal. Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel foram os pioneiros que demonstraram que neurônios poderiam ser ligados ou desligados com pulsos luminosos. Seu trabalho culminou no Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 2026, reconhecendo a revolução que trouxe ao estudo do cérebro.
Esses pesquisadores mostraram que, ao inserir genes que codificam proteínas sensíveis à luz, é possível modular a excitabilidade de circuitos específicos. A descoberta abriu caminho para experimentos que antes eram impossíveis, como a manipulação de comportamentos em animais com precisão milimétrica. A comunidade científica mundial passou a adotar a técnica como padrão para estudos de neurofisiologia.
Do laboratório sueco ao Brasil: a trajetória de Cleiton Lopes Aguiar
Cleiton Lopes Aguiar iniciou sua relação com a optogenética durante o doutorado no Instituto Karolinska, na Suécia, em 2013. Lá, ele aprendeu o método diretamente com equipes ligadas a Deisseroth, absorvendo tanto a teoria quanto as práticas de laboratório. Ao retornar ao Brasil em 2014, Aguiar trouxe consigo os protocolos e a expertise necessários para iniciar a pesquisa nacional.
Como bolsista da FAPESP, Aguiro implementou a técnica em seu laboratório na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP‑USP). Ele treinou estudantes e pós‑doutorandos, criando um núcleo de investigação que hoje é referência em optogenética no país. O objetivo inicial era reproduzir experimentos clássicos e, em seguida, adaptar a tecnologia a questões locais.
Hoje, o laboratório de Aguiar combina optogenética com abordagens comportamentais para estudar como a luz afeta processos cognitivos. Os experimentos são realizados em camundongos geneticamente modificados, que recebem um vírus transportador de genes luminosos. Essa estratégia permite observar, em tempo real, como circuitos específicos influenciam a memória e o sono.
Aplicações atuais: sono, luz azul e doenças neurológicas
Uma das linhas de pesquisa mais promissoras investiga a relação entre o sono e a consolidação de memórias. Os pesquisadores utilizam pulsos de luz para ativar ou inibir neurônios durante a fase de sono profundo, avaliando o impacto na retenção de informações aprendidas durante o dia. Os resultados preliminares sugerem que a manipulação de circuitos específicos pode melhorar a memória em modelos animais.
Outra área de foco é a influência da luz emitida por smartphones e tablets no período noturno. A equipe de Aguiar tem demonstrado que a exposição à luz azul pode desregular os ritmos circadianos, afetando a qualidade do sono e aumentando a vulnerabilidade a transtornos psiquiátricos. Ao usar a optogenética, eles identificam quais vias neurais são responsáveis por essa perturbação.
Além disso, a técnica tem sido aplicada para modelar doenças neurodegenerativas. Em estudos com camundongos portadores de genes associados ao Parkinson, a ativação seletiva de circuitos pode reverter déficits cognitivos. Similarmente, em modelos de depressão e ansiedade, a inibição de regiões hiperativas demonstra efeitos antidepressivos.
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- Parkinson
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Esses achados reforçam o potencial da optogenética como ferramenta translacional, capaz de apontar alvos terapêuticos para intervenções humanas. Ao mapear circuitos críticos, os cientistas podem desenvolver estratégias de estimulação não invasiva, como a estimulação magnética transcraniana, baseadas em evidências pré‑clínicas.
Rafael Naime Ruggiero, professor da Unifesp, destaca que a técnica permite “ligar” neurônios que normalmente não respondem à luz, criando novas possibilidades de investigação. Ele enfatiza que, embora o método exija manipulação genética, os vírus usados são seguros e não causam doença nos animais.
O processo de inserção do gene da proteína sensível à luz envolve a injeção de um vetor viral no cérebro dos roedores. Esse vetor, similar a um vírus da gripe, transporta o DNA necessário sem se replicar, garantindo que apenas as células-alvo expressem a proteína. Uma vez inserida, a proteína reage à luz de comprimentos específicos, abrindo ou fechando canais iônicos.
Com a capacidade de excitar ou inibir neurônios, os pesquisadores podem criar “cenários” experimentais que simulam condições fisiológicas ou patológicas. Por exemplo, ao silenciar circuitos associados ao medo, é possível observar redução de comportamentos ansiosos em testes de labirinto elevado.
Os avanços recentes também incluem o desenvolvimento de variantes de proteínas que respondem a diferentes cores de luz, permitindo a manipulação simultânea de múltiplos circuitos. Essa multiplexação abre caminho para estudos mais complexos, como a interação entre redes de memória e emoção.
O impacto da optogenética vai além da neurociência básica; ela está influenciando áreas como a engenharia biomédica e a farmacologia. Empresas de biotecnologia estão explorando a tecnologia para criar terapias de precisão, enquanto farmacêuticos investigam combinações de drogas com estimulação luminosa.
Entretanto, há desafios éticos e técnicos que precisam ser abordados. A manipulação genética em humanos ainda levanta questões de segurança, e a tradução dos resultados de modelos animais para pacientes requer rigorosos ensaios clínicos. O debate científico continua ativo, buscando equilibrar inovação e responsabilidade.
Em resumo, a adoção da optogenética no Brasil demonstra como a ciência nacional pode se integrar a descobertas de ponta e gerar conhecimento relevante para a saúde pública. A colaboração entre instituições brasileiras e internacionais fortalece a capacidade de responder a questões complexas sobre o cérebro.
Com o apoio de agências de fomento como a FAPESP e a CNPq, o campo deve continuar a crescer, atraindo novos talentos e recursos. A expectativa é que, nos próximos anos, mais estudos revelem como a luz pode ser usada para tratar distúrbios neurológicos de forma eficaz e segura.








