Na manhã da última quarta‑feira, 7 de junho, a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) concluíram a Operação Magen, que visou desarticular uma quadrilha especializada no comércio ilegal de armamento e no vazamento de dados da segurança pública. A ação ocorreu em diversos bairros da capital e em municípios da Baixada Fluminense, como Nova Iguaçu e Angra dos Reis.
Contexto da Operação
A investigação foi conduzida pelo Grupo de Investigações Sensíveis (GISE) da PF e pelo Grupo de Atuação Especializada de Defesa da Integridade e Repressão à Sonegação Fiscal (GAESF) do MPRJ. Ambos os órgãos identificaram um núcleo estruturado que coordenava a compra, o transporte e a revenda clandestina de armas de uso restrito.
Os alvos da operação estavam ligados ao Terceiro Comando Puro (TCP), facção que domina o Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio. O líder da facção, conhecido como Peixão, recebeu diretamente dez fuzis AR‑15 da rede investigada.
Além do tráfico de armas, a quadrilha mantinha um esquema de vazamento de informações sigilosas, como mandados de prisão, endereços de alvos e registros de veículos, para facilitar extorsões e evitar a ação policial.
Alvos e acusações
Entre os investigados estavam ex‑militares, um policial civil ativo e ex‑parlamentares da Alerj. Vitor Hugo Marinho Garcia, apelidado de Batata, foi apontado como líder da organização criminosa e responsável por suprir o TCP com armamento.
José Carlos Ribeiro de Campos, conhecido como Ferrugem, teria fornecido dois fuzis Colt M4 e quatro carregadores para revenda. O policial militar Johan Borja Portela, por sua vez, colocou à venda um revólver calibre .38, nove pistolas Glock 9 mm e 22 carregadores.
O policial civil Carlos Barnabé Santos Souza, o Alemão, foi denunciado por acessar o Portal de Segurança do Estado e repassar dados sobre proprietários de veículos e endereços de suspeitos.
Do lado político, Marcel Rodrigues Fernandes, assessor parlamentar na Alerj até outubro de 2025, e Eduardo Thales Lopes Pires, ex‑militar e ex‑comissionado na mesma casa legislativa, foram investigados por movimentar dezenas de milhões de reais sem comprovar origem lícita.
Impacto financeiro e bens apreendidos
O Ministério Público revelou que Vitor Hugo Garcia movimentou cerca de R$ 31,9 milhões entre 2019 e 2023, enquanto Marcel Rodrigues Fernandes movimentou R$ 33,2 milhões no mesmo período. Eduardo Thales Lopes Pires registrou aproximadamente R$ 33,4 milhões.
Além das movimentações suspeitas, foram apreendidos:
- Três imóveis localizados em bairros nobres da cidade do Rio;
- 31 veículos, incluindo carros de luxo e utilitários;
- Armas de fogo, munições e carregadores de uso restrito;
- Equipamentos eletrônicos usados para vazamento de dados.
Os mandados cumpridos incluíram sete prisões preventivas e 18 buscas e apreensões domiciliares em endereços de Barra da Tijuca, Copacabana, Parada de Lucas, Vila da Penha e nas cidades de Nova Iguaçu, Mesquita, Nilópolis, Seropédica e Angra dos Reis.
Os investigados que não foram presos foram submetidos a monitoramento eletrônico por tornozeleira, como medida cautelar adicional.
Repercussões e próximos passos
A PF divulgou que a operação demonstra a capacidade de atuação conjunta entre forças federais e o Ministério Público para enfrentar organizações que combinam crime organizado, corrupção e tráfico de armas.
O caso ainda está em fase de instrução, e a justiça deverá decidir sobre a prisão preventiva dos demais investigados, bem como sobre a confiscação dos bens apreendidos.
Especialistas em segurança pública alertam que o vazamento de dados sigilosos pode comprometer investigações em curso e colocar em risco a integridade de agentes policiais.
Autoridades reforçaram que a cooperação entre órgãos de segurança e o acompanhamento rigoroso de transações financeiras são essenciais para impedir que ex‑militares e políticos se utilizem de suas posições para lucrar com atividades ilícitas.
O desmantelamento da rede também trouxe à tona a necessidade de aprimorar os mecanismos de controle interno nas instituições públicas, a fim de evitar que servidores tenham acesso indevido a informações sensíveis.
Com a Operação Magen, a PF enviou um sinal claro de que o combate ao tráfico de armas e à corrupção dentro das forças de segurança continuará sendo prioridade nas próximas investigações.








