Um estudo divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou que aproximadamente 12% dos casos de câncer diagnosticados em 2024 têm origem em infecções. A pesquisa, publicada na revista The Lancet Oncology, analisou dados globais para identificar a contribuição de vírus e bactérias no desenvolvimento de tumores. Os resultados apontam que, em média, um em cada oito pacientes com câncer pode ter sido exposto a um agente infeccioso que desencadeou a doença.
Principais patógenos associados ao câncer
Os pesquisadores identificaram cinco microrganismos responsáveis por grande parte dos casos relacionados a infecções. Juntos, eles correspondem a quase 15% dos tumores estudados, destacando a importância da prevenção e do tratamento precoce dessas infecções.
- Helicobacter pylori – responsável por cerca de 4% dos casos, principalmente de câncer gástrico.
- Papilomavírus humano (HPV) – também cerca de 4%, ligado a cânceres de colo do útero, ânus, pênis e orofaringe.
- Hepatite B – representa 2% dos casos, principalmente de carcinoma hepatocelular.
- Vírus de Epstein-Barr (EBV) – cerca de 1%, associado a linfomas e câncer nasofaringe.
- Hepatite C – menos de 1%, mas ainda relevante para tumores hepáticos.
Esses patógenos podem provocar mais de 20 tipos diferentes de câncer, incluindo tumores de estômago, fígado, sangue e colo do útero. A diversidade de órgãos afetados demonstra como a relação entre infecção e oncogênese é complexa e multifatorial.
Como as infecções podem transformar células saudáveis em cancerosas
Os vírus têm a capacidade de interferir diretamente no material genético das células que infectam. Essa interferência pode ocorrer de três maneiras principais, cada uma aumentando o risco de desenvolvimento tumoral.
- Desativação de mecanismos de controle celular, como a proteína TP53 ou RB, que normalmente induzem a morte ou interrompem a divisão descontrolada.
- Integração do DNA viral ao genoma da célula hospedeira, alterando genes críticos para a regulação da proliferação.
- Transmissão de oncogenes virais, genes que já possuem potencial cancerígeno e podem ser incorporados ao DNA da célula infectada.
Esses processos foram fundamentais para a compreensão moderna da genética do câncer, pois mostraram que alterações genéticas podem ser induzidas por agentes externos.
No caso das bactérias e parasitas, o mecanismo costuma ser mais indireto. Infecções crônicas geram inflamação persistente, que, ao longo do tempo, causa estresse oxidativo e dano ao DNA das células adjacentes.
A inflamação crônica também estimula a produção rápida de novas células para reparar tecidos lesionados, aumentando a probabilidade de erros durante a replicação do DNA. Esses erros podem se transformar em mutações que impulsionam a carcinogênese.
Exemplos clássicos incluem a Helicobacter pylori, que provoca gastrite crônica e úlceras, e o parasita Opisthorchis viverrini, associado a câncer de fígado. Ambos demonstram como agentes não virais podem, por meio da inflamação, contribuir para o surgimento de tumores.
Implicações para a prevenção e controle do câncer
Embora o estudo não tenha como objetivo comparar diferentes anos, ele destaca que a prevenção de infecções pode reduzir significativamente a carga global de câncer. Vacinas, rastreamento e tratamento precoce são estratégias-chave.
Por exemplo, a vacinação contra o HPV já demonstrou reduzir a incidência de câncer cervical em países onde a cobertura vacinal é alta. Da mesma forma, a vacinação contra hepatite B tem impacto direto na diminuição de casos de carcinoma hepatocelular.
O tratamento da infecção por Helicobacter pylori, por meio de antibióticos, pode reverter a inflamação gástrica e diminuir o risco de câncer de estômago. Programas de triagem para hepatite C, combinados com terapias antivirais de ação direta, têm reduzido a prevalência de infecção e, consequentemente, de câncer hepático.
Além das intervenções médicas, medidas de saúde pública, como saneamento básico e educação sobre práticas sexuais seguras, são essenciais para limitar a transmissão de patógenos oncogênicos.
Os autores do estudo ressaltam que, apesar das variações nos dados ao longo das décadas, a mensagem central permanece: controlar infecções é uma ferramenta poderosa na luta contra o câncer. Investir em vacinação, diagnóstico precoce e tratamento adequado pode salvar milhões de vidas.
Em síntese, a conexão entre infecções e câncer não só amplia o entendimento científico, mas também oferece caminhos concretos para a prevenção. Ao reconhecer que um número significativo de tumores tem origem infecciosa, políticas de saúde podem ser direcionadas para reduzir essa parcela evitável da doença.
Portanto, a mensagem para a população e os gestores de saúde é clara: a prevenção de infecções, seja por vacinação, tratamento ou medidas de higiene, representa uma estratégia eficaz para diminuir a incidência de vários tipos de câncer em todo o mundo.








