Nas eleições de outubro de 2024, o ex-ministro José Dirceu e outros políticos vinculados ao escândalo do mensalão não conseguiram garantir cadeiras na Câmara dos Deputados, apesar do apoio declarado do presidente da República. O resultado, divulgado na noite de 30 de outubro, surpreendeu analistas e militantes do Partido dos Trabalhadores, que esperavam uma recuperação política para esses nomes.
O retorno inesperado de José Dirceu
José Dirceu, que foi um dos principais articuladores do governo de Luiz Inácio Lula da Silva entre 2003 e 2005, tentou reingressar no Legislativo após ter recuperado seus direitos políticos. Aos 80 anos, ele concorreu em São Paulo acreditando que o respaldo do presidente garantiria a vitória.
O ex-ministro recebeu pouco mais de 78 mil votos, número muito aquém dos mais de meio milhão obtidos em 2002. Esse resultado o deixou atrás de 17 colegas do próprio PT, que também disputavam vagas na mesma coligação. Como consequência, Dirceu assegurou apenas uma suplência, sem poder atuar como deputado efetivo.
O apoio de Lula foi público e enfático: em setembro, o presidente afirmou que a eleição de Dirceu seria uma “reparação histórica”. No entanto, a mensagem não foi suficiente para reverter o ceticismo dos eleitores, que ainda lembram das condenações por corrupção nos escândalos do mensalão e do petrolão.
Outros nomes do mensalão também ficam para trás
Além de Dirceu, outros políticos associados ao mensalão enfrentaram o mesmo destino nas urnas. O ex-deputado federal André Vargas, do Paraná, recebeu cerca de R$ 856 mil do PT para financiar sua campanha, mas acabou com apenas 34 mil votos, ficando também com uma suplência.
Vargas, que fora vice‑presidente da Câmara antes de ser cassado pela Operação Lava‑Jato, tentou se posicionar como interlocutor entre o governo federal e o Paraná, recebendo visitas de ministros e de lideranças como Gleisi Hoffmann e José Guimarães. Mesmo com esse contato direto, sua candidatura não prosperou.
O ex‑tesoureiro do PT, Delúbio Soares, tentou uma vaga em Goiás. Apesar de ter arrecadado R$ 795 mil do partido e contar com apoio de sindicatos, ele recebeu apenas 14,2 mil votos, também ficando na condição de suplente.
O único mensaleiro que conseguiu se eleger foi João Paulo Cunha, ex‑presidente da Câmara dos Deputados, condenado a mais de nove anos de prisão. Ele conquistou 109 mil votos em São Paulo e garantiu a cadeira, embora sua presença no Legislativo continue cercada de controvérsias.
- José Dirceu – 78 mil votos (suplente)
- André Vargas – 34 mil votos (suplente)
- Delúbio Soares – 14,2 mil votos (suplente)
- João Paulo Cunha – 109 mil votos (eleito)
Análise do impacto político e perspectivas
O desempenho ruim desses candidatos indica um desgaste significativo do PT perante eleitores que ainda associam o partido a casos de corrupção de grande repercussão. A estratégia de usar a figura de Lula como motor de campanha não foi suficiente para neutralizar o histórico judicial dos mensaleiros.
Especialistas apontam que a falta de renovação dentro do partido e a ênfase em nomes já condenados contribuíram para a alienação de eleitores mais jovens e de setores urbanos que demandam renovação ética.
Além disso, a presença de candidatos independentes e de coligações de centro‑direita nas mesmas regiões aumentou a competitividade, reduzindo ainda mais a fatia de votos que o PT poderia captar.
Para o futuro, o partido precisará repensar sua fórmula de candidaturas, privilegiando lideranças sem antecedentes criminais e que consigam se conectar com demandas atuais, como emprego, educação e meio ambiente.
O presidente Lula, que ainda mantém alta aprovação nacional, pode ter que equilibrar a defesa de antigos aliados com a necessidade de apresentar um quadro renovado para evitar novos retrocessos nas próximas disputas eleitorais.
Em resumo, a eleição de 2024 serviu como um termômetro da confiança popular no PT e nos indivíduos que carregam o rótulo de mensaleiros. Enquanto João Paulo Cunha conseguiu se manter, os demais nomes viram suas esperanças de retorno ao poder esvaziar, sinalizando que o caminho da redenção política ainda é longo e incerto.








