No ITForum Praia do Forte, realizado em agosto, a líder de inovação da Deloitte, Ana Carnaúba, comparou manguezais a ecossistemas de inteligência artificial, trazendo lições valiosas para as organizações. Ela explicou que a analogia vai além da rima e ajuda a entender como equilibrar tecnologia, pessoas e estratégia.
A diversidade como fonte de resiliência
Em um manguezal, a riqueza está na variedade de espécies que coexistem, cada uma desempenhando um papel único. Ana Carnaúba usa essa observação para contestar a ideia de que uma única ferramenta de IA possa substituir toda a equipe humana.
Ela destaca que empresas precisam combinar profissionais seniores, que trazem experiência acumulada, com jovens talentos que pensam de forma diferente. Essa combinação gera um ambiente mais adaptável e capaz de responder a mudanças rápidas.
- Profissionais seniores: visão estratégica e histórico de decisões.
- Jovens talentos: agilidade cognitiva e familiaridade com novas tecnologias.
- Especialistas em IA: domínio técnico que complementa as áreas de negócio.
Quando esses grupos trabalham juntos, a empresa cria um ecossistema interno tão robusto quanto o de um manguezal, capaz de resistir a choques externos.
Equilíbrio de poder e dependência tecnológica
Um ecossistema perde o equilíbrio quando um dos seus integrantes concentra poder demais. No mundo corporativo, isso se traduz na dependência excessiva de um único fornecedor de tecnologia ou plataforma.
A analogia de Ana ilustra o risco: imagine uma empresa com faturamento de R$ 1 bilhão, dos quais R$ 500 milhões vêm de um único cliente ou provedor de IA. Se esse cliente mudar de fornecedor, a operação pode entrar em colapso.
Para evitar esse cenário, as organizações devem diversificar suas parcerias e manter controle sobre os processos críticos.
- Mapear todos os pontos de dependência tecnológica.
- Negociar cláusulas de saída que garantam continuidade.
- Desenvolver capacidades internas para reduzir a vulnerabilidade.
Essas medidas ajudam a manter o ecossistema empresarial estável, assim como a biodiversidade protege o manguezal de dominância de uma única espécie.
Funções específicas e adaptação ao contexto
Cada organismo no manguezal cumpre uma função diferente porque vive em condições próprias. Da mesma forma, empresas variam em velocidade de automação, qualificação das equipes, perfil de clientes e metas estratégicas.
Ana Carnaúba rejeita a ideia de um modelo universal para governar a IA. Em vez disso, ela recomenda que cada organização crie um framework que reflita sua realidade única.
Alguns exemplos de adaptações incluem:
- Definir áreas onde a IA será central (ex.: análise de dados).
- Estabelecer processos de governança que integrem TI, RH e negócios.
- Ajustar o ritmo de implantação conforme a maturidade da equipe.
Essas práticas permitem que a inteligência artificial seja um facilitador, não um substituto, mantendo a harmonia entre tecnologia e capital humano.
Filtrando dados: o papel humano na era da IA
Uma das funções do manguezal é servir como filtro entre a terra e o mar, retendo sedimentos e poluentes antes que alcancem as águas costeiras. Na esfera corporativa, o filtro corresponde à curadoria de informações que chegam à IA.
Antes de enviar uma pergunta à máquina, é essencial validar a qualidade dos dados, a relevância da pesquisa e o propósito da consulta. Dados brutos podem gerar respostas imprecisas ou enviesadas.
Por outro lado, questões existenciais, emocionais e estratégicas continuam sendo domínio exclusivo dos seres humanos.
- O que deve ser perguntado à IA: métricas, padrões, previsões.
- O que permanece humano: valores, ética, tomada de decisão final.
Essa separação garante que a IA seja usada como ferramenta de apoio, enquanto a responsabilidade final permanece nas mãos das pessoas.
Em resumo, a analogia entre manguezais e ecossistemas de IA oferece um mapa prático para empresas que buscam inovar sem perder a estabilidade. Diversidade, equilíbrio de poder, adaptação ao contexto e filtragem inteligente são pilares que, quando bem aplicados, podem transformar desafios tecnológicos em oportunidades de crescimento sustentável.








