O procurador‑geral da Bolívia, Roger Mariaca, foi preso na noite de quarta‑feira, 30 de maio, no Aeroporto Internacional de Viru Viru, em Santa Cruz, dois dias depois de ter o visto para os Estados Unidos revogado. A detenção ocorreu ao lado do procurador departamental de Santa Cruz, Alberto Zeballos, também alvo da sanção americana.
Prisão no Aeroporto de Viru Viru
A ação policial foi coordenada por forças de segurança bolivianas e incluiu buscas nas dependências do Ministério Público em Sucre e Santa Cruz, além da residência de Mariaca. Quatorze pessoas foram apreendidas ao longo da operação, segundo informações oficiais.
Funcionários da Procuradoria descreveram o procedimento como um “sequestro”, questionando a legalidade da abordagem e a ausência de mandado judicial. As autoridades locais, porém, afirmam que a medida foi necessária para impedir a continuidade de supostos crimes.
Motivações e investigações em curso
O governo boliviano aponta para uma suposta organização criminosa que teria protegido traficantes de drogas dentro do próprio sistema de justiça. As investigações abrangem suspeitas de lavagem de dinheiro, tráfico internacional de entorpecentes e formação de quadrilha.
Entre as acusações formais contra Mariaca, destacam‑se:
- Conluio com grupos de narcotráfico para obstruir investigações;
- Facilitação de lavagem de recursos ilícitos provenientes do tráfico;
- Abuso de autoridade ao proteger agentes envolvidos em crimes transnacionais.
O procurador nega todas as imputações, alegando que as acusações são parte de uma campanha de desestabilização promovida por interesses externos.
Repercussões políticas internacionais
A prisão de Mariaca ocorre em meio a uma disputa que envolve também o argentino Fernando Cerimedo, consultor político ligado ao presidente da Argentina, Javier Milei, e que ganhou destaque no Brasil por sua proximidade com o ex‑presidente Jair Bolsonaro.
Mariaca comandava investigações contra Cerimedo na Bolívia, acusando‑o de tentativa de feminicídio contra a advogada Nadia Beller, além de suspeitas de lavagem de dinheiro e outros delitos. Cerimedo, por sua vez, nega as acusações e tem buscado apoio diplomático.
Na segunda‑feira, 28 de maio, o governo dos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, revogou o visto de Mariaca, alegando corrupção ligada ao narcotráfico. A sanção fez parte de uma ofensiva mais ampla contra autoridades de Bolívia, Colômbia, Equador e Peru, que Washington acusa de facilitar o crime organizado.
Mariaca reagiu acusando Washington de interferir nas investigações internas da Bolívia e afirmou que não interromperia os processos sob sua responsabilidade, incluindo o caso contra Cerimedo. Ele também defendeu a soberania nacional, sustentando que as acusações estrangeiras não têm base factual.
Declarações de Sebastián Marset e o contexto de corrupção
Nas últimas semanas, o narcotraficante uruguaio Sebastián Marset, capturado na Bolívia em março, divulgou gravações nas quais afirma ter relações próximas com Mariaca. Segundo Marset, o procurador teria fornecido informações privilegiadas sobre investigações em troca de pagamento.
Em um trecho das gravações, Marset alega ter pago US$ 500 mil para garantir proteção e permanecer no país sem ser extraditado. Embora essas declarações ainda não tenham sido comprovadas judicialmente, elas intensificam o clima de suspeita em torno do Ministério Público boliviano.
Especialistas em direito penal ressaltam que, mesmo que as acusações de Marset sejam falsas, elas podem servir como elemento probatório caso haja corroboramento de outras provas. A defesa de Mariaca, entretanto, insiste que as alegações são fruto de tentativa de incriminação política.
A comunidade internacional acompanha o caso com atenção, pois ele evidencia a complexa interseção entre políticas de combate ao narcotráfico, soberania nacional e influências externas. O desfecho das investigações poderá redefinir o panorama de cooperação judicial entre Bolívia e Estados Unidos.
Enquanto isso, a população de Santa Cruz e de outras regiões bolivianas permanece dividida entre quem vê a prisão como um ato de justiça e quem a interpreta como um golpe institucional. As próximas audiências prometem revelar mais detalhes sobre a suposta rede criminosa e sobre o papel efetivo de Mariaca dentro dela.








