Em 1º de outubro, durante a Argentina Week em Paris, o presidente Javier Milei apresentou o país a empresários europeus como um polo de energia e minerais estratégicos. A visita, que contou com a presença de representantes da OCDE, marcou o anúncio de US$ 10 bilhões em investimentos em projetos de gás, petróleo e lítio.
Investimentos da TotalEnergies
A TotalEnergies, gigante francesa do setor energético, revelou um plano de investimento que ultrapassa a marca de US$ 10 bilhões nos próximos anos. O objetivo principal é ampliar a produção de gás e petróleo em regiões-chave da Argentina, como a Terra do Fogo e Neuquén.
O presidente‑executivo da empresa, Patrick Pouyanné, detalhou que a companhia pretende:
- Perfuração de novos poços na província da Terra do Fogo, com foco no campo Alberdi.
- Expansão da produção de gás em Neuquén, especialmente na formação de Vaca Muerta.
- Aumento da produção diária de gás para 16 milhões de metros cúbicos.
- Investimento entre US$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões nos próximos dez anos em infraestrutura de extração.
Além disso, a TotalEnergies planeja um projeto offshore na Terra do Fogo, estimado em US$ 1,5 bilhão, que deve fortalecer a presença da empresa no Atlântico Sul. O aumento da produção de gás em Vaca Muerta inclui a expansão da unidade Aguada Pichana e a exploração do campo San Roque para petróleo.
Essas iniciativas são vistas como estratégicas para reduzir a dependência europeia de fornecedores de energia instáveis, sobretudo após as crises provocadas pela invasão da Ucrânia e pelos conflitos no Oriente Médio.
Projetos de lítio e mineração
A Eramet, empresa francesa de mineração, também anunciou a intenção de solicitar apoio estatal para seu projeto de lítio Centenario‑Ratones, localizado na província de Salta. O investimento estimado em US$ 350 milhões deve aumentar a capacidade de produção de carbonato de lítio em 11 mil toneladas anuais, elevando o total nacional para 35 mil toneladas.
O governo argentino tem reforçado a oferta de incentivos a grandes investimentos, criando um regime favorável para projetos de minerais críticos. Entre os recursos destacados por Milei, estão:
- Cobre, com reservas que posicionam a Argentina entre os maiores produtores globais.
- Lítio, essencial para baterias de veículos elétricos e armazenamento de energia.
- Urânio, que pode abastecer futuros projetos de energia nuclear.
Segundo Milei, a segurança jurídica e a estabilidade regulatória são pilares que atraem investidores estrangeiros, garantindo que os contratos sejam cumpridos e que os projetos tenham previsibilidade de longo prazo.
O presidente também ressaltou que a combinação de energia abundante, metais estratégicos e um ambiente regulatório sólido cria condições ideais para que a Argentina se torne um hub de inteligência artificial e data centers, setores que demandam grande consumo energético e acesso a minerais críticos.
Contexto geopolítico e perspectivas
O discurso de Milei se inseriu em um cenário global de reconfiguração das cadeias de suprimentos. A Europa, pressionada a reduzir a dependência do gás russo, busca alternativas estáveis e próximas, e a Argentina surge como uma opção viável devido à sua localização geográfica e ao afastamento de zonas de conflito.
Ao mesmo tempo, a competição entre Estados Unidos e China por minerais estratégicos tem intensificado a corrida por investimentos em mineração na América Latina. A Argentina, com seu vasto leque de recursos, está posicionada para se beneficiar desse movimento, desde que mantenha políticas de transparência e sustentabilidade.
Durante a visita, Milei também se encontrou com o presidente francês Emmanuel Macron no Palácio do Eliseu, reforçando laços diplomáticos e econômicos. A reunião incluiu discussões sobre cooperação em energia limpa, tecnologia e segurança energética.
Os empresários franceses presentes nas negociações mostraram interesse em projetos de energia renovável, como parques eólicos e solares, que complementariam a estratégia de diversificação da matriz energética argentina.
Além das grandes companhias, startups e empresas de tecnologia também foram convidadas a participar de rodadas de negócios, buscando oportunidades em áreas como captura de carbono, hidrogênio verde e soluções de eficiência energética.
O discurso de Milei recebeu aplausos e uma ovação de pé, indicando apoio popular a uma agenda de abertura econômica e atração de capitais estrangeiros. O presidente, ainda, sinalizou que pretende concorrer à reeleição em 2027, prometendo continuar as reformas estruturais e a política de incentivos ao investimento.
Analistas de mercado apontam que os US$ 10 bilhões anunciados pela TotalEnergies representam apenas o início de um fluxo potencial de capital que pode chegar a dezenas de bilhões, caso as condições macroeconômicas permaneçam favoráveis.
Entretanto, críticos alertam para os riscos ambientais associados ao fraturamento hidráulico, prática utilizada na extração de xisto. Organizações ambientais destacam a necessidade de monitoramento rigoroso da água, do solo e da biodiversidade nas áreas de exploração.
Para mitigar esses impactos, o governo argentino tem anunciado planos de regulamentação mais rígida, incluindo a exigência de estudos de impacto ambiental independentes e a implementação de tecnologias de redução de consumo de água.
Em resumo, a visita de Milei à França marcou um ponto de inflexão na estratégia de internacionalização da Argentina. Ao alinhar recursos naturais abundantes com políticas de incentivo e estabilidade jurídica, o país busca se posicionar como parceiro estratégico da Europa em energia e minerais críticos.
Se as promessas forem cumpridas, a Argentina pode testemunhar um crescimento significativo de sua balança comercial, geração de empregos qualificados e desenvolvimento de infraestrutura de alto valor agregado. O sucesso dependerá da capacidade do governo de equilibrar atração de investimentos com responsabilidade socioambiental.








