Um estudo recente mostrou que, em 2023, o excesso de peso passou a ser o principal fator de risco para a população brasileira, ultrapassando a pressão alta. A pesquisa, publicada na revista The Lancet Regional Health – Americas, analisou dados de três décadas e revelou uma inversão preocupante nos indicadores de saúde. O levantamento abrange todo o território nacional, destacando um cenário que exige ação imediata das políticas públicas.
A mudança no panorama dos fatores de risco
Desde 1990, o índice de massa corporal (IMC) ocupava a sétima posição entre os fatores que mais contribuíam para mortes prematuras no Brasil. Em 2023, ele subiu para o primeiro lugar, enquanto a hipertensão recuou para posições menos críticas. Essa transformação reflete mudanças no estilo de vida, na alimentação e na percepção da população sobre saúde.
Ao mesmo tempo, o país registrou avanços significativos na redução de óbitos por infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Esses ganhos foram atribuídos ao controle mais efetivo da pressão arterial e à diminuição do consumo de tabaco, impulsionados por campanhas de conscientização e políticas de preço mais rígidas.
Entretanto, o peso corporal e a glicemia alta foram os únicos fatores que apresentaram queda mínima ao longo de mais de trinta anos. Essa estagnação indica que, embora alguns riscos estejam sendo mitigados, outros continuam a crescer sem a devida atenção.
O caso de Martino Galliano: um retrato da realidade
Martino Galliano, 57 anos, viveu na prática as consequências de um IMC elevado. Em 2013, ele passou por uma cirurgia de revascularização do coração após descobrir que uma artéria coronária estava 98% obstruída. Na época, seu peso era de 130 kg, mas ele não sentia sintomas aparentes.
Após a operação, Martino perdeu cerca de 80 kg durante a reabilitação, chegando a 50 kg a menos. Contudo, ao longo dos anos, parte do peso voltou, e em 2022 ele sofreu um infarto, reforçando a ligação entre obesidade e doenças cardiovasculares.
O cardiologista Elzo Mattar, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, enfatiza que a recaída de Martino não indica falha individual, mas sim a natureza crônica da obesidade. Segundo ele, entre 70% e 75% das pessoas obesas também apresentam hipertensão, criando um círculo vicioso que pode permanecer silencioso por anos.
Por que a obesidade avança enquanto hipertensão recua
O declínio da pressão alta está ligado a políticas concretas: a ampliação do diagnóstico precoce na atenção primária, a oferta de medicamentos gratuitos pelo Programa Farmácia Popular e campanhas anti-tabagismo que reduziram o número de fumantes de cerca de um terço para pouco mais de um décimo da população.
Em contraste, o aumento do peso corporal tem causas mais difusas. A disponibilidade de alimentos ultraprocessados, a redução da atividade física diária e a percepção equivocada de que a obesidade é fruto exclusivo de escolhas pessoais dificultam a implementação de medidas eficazes.
- Alimentos ricos em açúcar e gordura saturada são mais baratos e acessíveis.
- O sedentarismo se intensifica com o crescimento do trabalho remoto e do uso excessivo de dispositivos eletrônicos.
- Campanhas de conscientização ainda não conseguem mudar hábitos profundamente enraizados.
Além disso, a resistência à insulina e a diabetes silenciosa podem mascarar os sinais de alerta, permitindo que a aterosclerose progrida sem dor ou desconforto perceptível. Essa condição, chamada de isquemia silenciosa, dificulta a detecção precoce de problemas cardíacos.
Recomendações e caminhos para reverter a tendência
Especialistas recomendam que a população adote exames periódicos de colesterol, glicemia e hemoglobina glicada, especialmente para quem já apresenta fatores de risco adicionais. Para indivíduos com histórico familiar ou suspeita de doença coronariana, a tomografia de escore de cálcio pode identificar placas antes que causem sintomas.
Programas de reabilitação pós-cirúrgica devem incluir acompanhamento nutricional e incentivo à prática regular de exercícios. Estudos mostram que a combinação de dieta balanceada, atividade física moderada e suporte psicológico aumenta as chances de manutenção do peso saudável.
Políticas públicas também precisam focar na redução do preço de alimentos saudáveis, na criação de ambientes urbanos que favoreçam a caminhada e o uso de bicicletas, e na regulamentação mais rigorosa da publicidade de produtos ultraprocessados dirigida a crianças e adolescentes.
Somente com uma abordagem integrada – envolvendo governo, setor privado, profissionais de saúde e a própria população – será possível conter o avanço da obesidade e proteger os ganhos já conquistados no controle da hipertensão e do tabagismo.








