Falar durante o sono, também conhecido como somniloquia, é um fenômeno que afeta muitas pessoas ao redor do mundo. Estudos recentes realizados em 2024 por especialistas em neurociência do sono revelam que esse comportamento pode ocorrer em diferentes fases da noite. O psicólogo clínico Dr. Carlos Mendes, que atua há quase duas décadas na área, explica as causas e implicações desse hábito.
O que são as parassonias e como se manifestam
Parassonias são comportamentos anômalos que surgem durante o sono, incluindo sonambulismo, terrores noturnos e a própria fala dormindo. Elas podem aparecer em qualquer fase do sono, embora algumas sejam mais frequentes no sono não‑REM profundo e outras no sono REM, quando os sonhos são mais vívidos. A somniloquia costuma ser classificada como uma parassonia leve porque, na maioria dos casos, não traz risco direto à saúde.
Os relatos mais comuns incluem murmúrios, risadinhas, palavras soltas e, ocasionalmente, frases completas. Quando analisados em laboratórios de polissonografia, os pacientes mostram atividade elétrica cerebral típica da fala, mas com o tônus muscular ainda reduzido, o que impede a produção de sons claros.
Embora a maioria das pessoas que falam ao dormir não perceba o que diz, parceiros de cama frequentemente relatam diálogos confusos, perguntas incompletas ou até palavrões. Estudos apontam que a palavra “não” aparece em cerca de 5% das ocorrências, seguida por interrogações que sugerem um diálogo interno interrompido.
- Tipos de parassonias: sonambulismo, terrores noturnos, pesadelos, falar dormindo.
- Fases mais associadas: sono não‑REM profundo (sonambulismo) e sono REM (falar dormindo).
- Frequência: até 50% da população relata ter falado ao menos uma vez na vida.
Como funciona o cérebro durante o sono
Durante o sono, o cérebro não “desliga”, mas reorganiza suas funções em ciclos de aproximadamente 90 minutos. Cada ciclo inclui estágios de sono leve, sono profundo (não‑REM) e sono REM, onde os olhos se movem rapidamente e os sonhos são mais intensos. Enquanto o corpo descansa, áreas específicas permanecem ativas para consolidar memórias, regular hormônios e manter a vigilância interna.
Na fase REM, as regiões corticais responsáveis pela linguagem, como a área de Broca e a área de Wernicke, podem ser ativadas por conteúdos oníricos. Simultaneamente, os centros que controlam a musculatura da fala são inibidos por mecanismos de atonia, impedindo a produção de fala clara. Quando essa inibição é parcial, surgem sons baixos ou murmúrios, que caracterizam a somniloquia.
Já no sono não‑REM profundo, a atividade cerebral diminui, mas ainda há ondas lentas que podem desencadear respostas motoras involuntárias, como movimentos dos braços ou pernas. Em casos raros, a combinação de atividade de linguagem residual com diminuição da atonia pode gerar fala mais articulada, embora ainda incomum.
Fatores que influenciam o falar dormindo
Vários elementos externos e internos podem aumentar a probabilidade de alguém falar enquanto dorme. O estresse crônico, por exemplo, eleva os níveis de cortisol, interferindo na arquitetura do sono e provocando despertares frequentes que facilitam a manifestação de parassonias.
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O consumo de álcool ou de substâncias estimulantes, como cafeína, também altera o padrão dos estágios de sono, reduzindo o tempo de sono profundo e aumentando a fragmentação do sono REM, o que favorece a fala noturna.
Distúrbios do sono diagnosticados, como apneia obstrutiva, insônia ou síndrome das pernas inquietas, podem gerar microdespertares que ativam áreas de linguagem antes que a atonia completa seja restabelecida.
- Estresse e ansiedade: aumentam despertares e fragmentam o sono.
- Álcool e cafeína: perturbam a sequência normal dos estágios.
- Distúrbios respiratórios: causam microdespertares frequentes.
- Genética: predisposição familiar para parassonias.
Além disso, fatores ambientais como ruídos inesperados, luzes fortes ou temperatura inadequada podem desencadear microdespertares que dão margem à fala involuntária. Crianças são particularmente suscetíveis, pois ainda estão desenvolvendo os mecanismos de atonia muscular durante o sono.
Dicas para lidar com a somniloquia
Se a fala durante o sono causa constrangimento ou interfere na qualidade do descanso, algumas estratégias simples podem ajudar a reduzir a frequência dos episódios.
Manter uma rotina regular de sono, indo para a cama e acordando no mesmo horário todos os dias, favorece a consolidação dos ciclos de sono e diminui a fragmentação. Evitar telas eletrônicas e estímulos intensos pelo menos uma hora antes de dormir também contribui para um adormecimento mais tranquilo.
Praticar técnicas de relaxamento, como respiração diafragmática, meditação guiada ou alongamentos leves, reduz a carga de cortisol e prepara o cérebro para transitar suavemente entre os estágios. Caso o consumo de álcool seja frequente, reduzir a ingestão nas noites anteriores ao sono pode melhorar a integridade da atonia muscular.
Para quem suspeita de um distúrbio subjacente, a avaliação por um especialista em medicina do sono é recomendada. Polissonografias realizadas em laboratórios ou em casa com dispositivos portáteis podem identificar a presença de apneia, movimentos periódicos dos membros ou outras anomalias que justifiquem intervenções específicas.
- Estabeleça horários consistentes para dormir e acordar.
- Crie um ambiente escuro, silencioso e com temperatura entre 18 °C e 22 °C.
- Limite cafeína após as 14h e álcool nas noites de sono.
- Pratique relaxamento antes de deitar.
- Consulte um especialista se os episódios forem frequentes ou perturbadores.
Em resumo, falar enquanto dormimos é um fenômeno normal dentro da gama de parassonias, geralmente inofensivo, mas que pode revelar aspectos importantes da saúde mental e física. Entender a neurobiologia por trás da somniloquia permite que indivíduos e profissionais adotem medidas preventivas, melhorando a qualidade do sono e, consequentemente, a qualidade de vida.








