No dia 4 de outubro de 2024, diversas figuras associadas ao ataque de 8 de janeiro de 2023 em Brasília tentam se lançar como candidatos nas eleições federais, estaduais e municipais, mesmo após serem impedidos de concorrer por decisões do Supremo Tribunal Federal. A tentativa de permanecer no cenário político revela uma estratégia de contorno que envolve familiares, substitutos e campanhas financiadas por recursos partidários. O movimento evidencia a continuidade da disputa entre o establishment judicial e a base radical da direita brasileira.
Condenações judiciais e a busca por substitutos
O STF declarou inelegíveis mais de vinte personalidades que participaram ativamente das invasões à Praça dos Três Poderes. Entre eles estão ex‑deputados, empresários e líderes de movimentos que ainda mantêm forte presença nas redes sociais. Como solução, muitos optaram por colocar cônjuges, filhos ou parentes próximos na fila eleitoral, garantindo que a ideologia permaneça representada nos plenários.
Essa prática tem sido chamada de “candidatura de fachada” por analistas políticos, que apontam para a tentativa de driblar a justiça sem mudar o discurso. A cientista política Tathiana Chicarino, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, destaca que a estratégia reforça a radicalização do debate e cria novos focos de mobilização.
- Carla Zambelli, atualmente na Itália, promove a candidatura de sua mãe, Rita Zambelli (PL‑SP).
- Rebeca Ramagem (PL‑RJ) recebeu mais de 1,7 milhão de reais para financiar a campanha da esposa, apesar das restrições ao marido.
- Marcos Soares Moreira, conhecido como “Marcos Muralha”, concorre ao deputado estadual no Espírito Santo mesmo após prisão preventiva.
Esses exemplos ilustram como o financiamento partidário, que soma cerca de 9 milhões de reais, continua sendo um recurso crucial para manter a presença dos aliados do bolsonarismo nas urnas.
Impacto nas urnas e na percepção pública
As pesquisas recentes do Datafolha revelam que 48% dos brasileiros desconfiam do STF, acreditando que a Corte age como um poder autônomo e distante da realidade popular. Essa desconfiança alimenta a narrativa de que os julgamentos são motivados por perseguição política, o que fortalece a base de apoio dos candidatos proibidos.
A advogada Carolina Siebra (Novo‑CE), que preside a associação de familiares dos réus do 8 de janeiro, utiliza essa sensação de injustiça para cobrar reformas institucionais. Ela argumenta que a falta de responsabilização dos magistrados cria um vácuo de legitimidade que pode ser preenchido por candidatos de perfil similar.
Além do discurso, a campanha de mídia digital tem sido intensiva. Perfis nas redes sociais, como o de Carla Zambelli, continuam a mobilizar milhares de seguidores com mensagens de apoio e chamadas para o voto de “herdeiros políticos”. Essa estratégia digital tem se mostrado eficaz na manutenção de uma base de eleitores que se sente excluída do sistema tradicional.
Perspectivas para o futuro da direita brasileira
O pleito de outubro funciona como um termômetro para avaliar se o grupo liderado por Jair Bolsonaro ainda detém influência significativa nos corredores do poder. Caso os substitutos eleitos consigam garantir cadeiras no Congresso, a agenda de anistia para os participantes dos atos de 8 de janeiro poderá ganhar força legislativa.
Por outro lado, a rejeição de candidatos ligados ao golpe pode sinalizar um desgaste da estratégia de confrontação direta com o Judiciário. Analistas apontam que a vitória de opositores moderados poderia abrir espaço para reformas institucionais que reduzam a polarização.
Independentemente do resultado, o cenário eleitoral demonstra que a batalha entre a justiça e a militância radical está longe de terminar. O uso de recursos partidários, a mobilização de familiares e a presença constante nas redes sociais sugerem que a disputa continuará a se desenrolar nos próximos anos, moldando a configuração política do país.








