Um grupo de 20 especialistas de áreas como hematologia, gastroenterologia, endocrinologia, cirurgia bariátrica e geriatria se reuniu em 2024, em São Paulo, para definir a melhor forma de repor a vitamina B12 em pacientes deficientes. O consenso, publicado na revista eClinicalMedicine do grupo The Lancet, concluiu que nenhuma via – oral, sublingual ou intramuscular – se sobressai de forma significativa em termos de eficácia clínica.
Como o consenso foi elaborado
Os pesquisadores iniciaram o trabalho revisando centenas de estudos que comparavam as três rotas de administração. Cada afirmação resultante da revisão foi submetida a duas rodadas de votação online, seguidas por uma reunião presencial onde os participantes puderam discutir divergências. A aprovação de uma afirmação exigiu concordância de, no mínimo, 90% dos especialistas, garantindo um alto grau de unanimidade.
Esse método combinou análise de evidência científica com a experiência prática dos médicos, permitindo que o documento final refletisse tanto dados quantitativos quanto nuances clínicas observadas no dia a dia dos consultórios.
Vias de reposição analisadas
A via oral envolve comprimidos ou cápsulas que são absorvidos no intestino delgado. A sublingual, por sua vez, permite que o nutriente seja absorvido diretamente pela mucosa da boca, evitando parcialmente a passagem pelo trato gastrointestinal. Já a intramuscular consiste na aplicação de injeções que depositam a vitamina diretamente no músculo, proporcionando absorção rápida na corrente sanguínea.
Os estudos comparativos mostraram que, ao final de períodos de tratamento que variaram de três a seis meses, os níveis séricos de B12 se normalizaram de maneira semelhante independentemente da via escolhida. No entanto, a maioria das pesquisas utilizou apenas a concentração sanguínea como parâmetro, sem avaliar a melhora dos sintomas neurológicos ou hematológicos.
Por isso, o consenso recomenda que a escolha da via seja feita com base nas preferências do paciente, na gravidade clínica e na presença de condições que possam interferir na absorção, como uso crônico de inibidores de bomba de próton ou metformina.
Quem está mais vulnerável à deficiência
A deficiência de vitamina B12 afeta principalmente idosos, indivíduos que passaram por cirurgia bariátrica e pacientes com gastrite atrófica, condição que altera o revestimento do estômago e diminui a produção de fator intrínseco, essencial para a absorção da vitamina.
Além desses grupos, o uso prolongado de medicamentos como omeprazol, pantoprazol e outros inibidores de bomba de próton, bem como a metformina utilizada no tratamento da diabetes tipo 2, são fatores de risco reconhecidos. Esses fármacos podem reduzir a acidez gástrica ou interferir na absorção intestinal, contribuindo para níveis baixos de B12.
Embora a triagem de rotina da população geral não seja recomendada, os especialistas alertam para a necessidade de vigilância ativa nos grupos de risco, especialmente quando surgem sintomas sugestivos.
- Formigamento ou sensação de queimação nas mãos e pés
- Fadiga inexplicada e fraqueza muscular
- Anemia megaloblástica
- Dificuldade de concentração e alterações de humor
- Comprometimento da marcha e equilíbrio
Esses sinais podem preceder complicações neurológicas irreversíveis se a deficiência não for identificada e tratada a tempo.
Recomendações práticas para pacientes e profissionais
O documento orienta que a avaliação da resposta ao tratamento vá além da simples normalização do exame de sangue. Marcadores funcionais como ácido metilmalônico e homocisteína devem ser considerados, pois refletem o metabolismo da vitamina em nível celular.
Nos casos de urgência – por exemplo, pacientes com anemia megaloblástica grave ou neuropatia avançada – a via intramuscular é preferida, pois garante absorção imediata e níveis terapêuticos rápidos. Em situações menos críticas, a escolha pode recair sobre a via oral ou sublingual, de acordo com a conveniência e adesão do paciente.
Além da reposição, é essencial tratar as causas subjacentes da deficiência. Isso inclui a revisão do uso de medicamentos que interferem na absorção, a avaliação de possíveis doenças gástricas e, quando indicado, a consideração de suplementos de fator intrínseco.
Os profissionais de saúde são incentivados a manter um diálogo aberto com os pacientes, explicando que a normalização dos níveis séricos não garante a resolução imediata dos sintomas. O acompanhamento clínico regular, com reavaliação dos marcadores funcionais e dos sinais neurológicos, é fundamental para garantir a eficácia do tratamento a longo prazo.
Em síntese, o consenso brasileiro traz clareza ao debate sobre a reposição de vitamina B12, reforçando que todas as vias são eficazes quando bem indicadas e monitoradas. A ênfase está na personalização do cuidado, na vigilância dos grupos de risco e na avaliação abrangente dos resultados clínicos, garantindo assim a saúde e a qualidade de vida dos pacientes.








