O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta quarta‑feira (23) os resultados da PNAD Contínua – Características Adicionais do Mercado de Trabalho 2025, apontando mudanças significativas na forma como os brasileiros exercem suas atividades laborais. Os números mostram que, embora o trabalho remoto ainda supere os níveis pré‑pandemia, a tendência de retorno ao escritório tem se consolidado nos últimos três anos. O levantamento cobre o período de 2022 a 2025 e compara a situação atual com dados de 2019 e de anos anteriores.
Retorno ao ambiente presencial
Em 2025, 60,2% dos trabalhadores brasileiros relataram exercer suas funções em estabelecimentos físicos, um aumento de 2,3 pontos percentuais em relação a 2022. Esse crescimento reflete a reabertura gradual de escritórios, fábricas e lojas, bem como a adaptação de políticas corporativas que priorizam a presença física.
O salto de 57,9% para 60,2% indica que empresas de diferentes setores estão reavaliando a produtividade e a cultura organizacional. Muitos gestores afirmam que a interação cara a cara facilita a comunicação, acelera a tomada de decisão e fortalece a identidade da marca.
Além disso, a pesquisa evidencia que a maior parte dos trabalhadores (aproximadamente 79%) que ainda atuam presencialmente o fazem por determinação da empresa, e não por escolha pessoal. Esse dado reforça a ideia de que a decisão de voltar ao escritório está, em grande parte, alinhada a estratégias de negócios.
Persistência do home office
Mesmo com o avanço do trabalho presencial, o home office ainda representa 7,9% da força de trabalho em 2025, acima dos 5,8% registrados em 2019. Esse número demonstra que a experiência de trabalhar de casa deixou marcas duradouras na relação entre empregadores e empregados.
Vários estudos complementares corroboram a tendência. A pesquisa da Robert Half aponta que profissionais de construção civil e engenharia permanecem, em média, 4,8 dias por semana no local de trabalho, enquanto o setor de serviços registra 3,3 dias presenciais. Já a análise conjunta da WeWork e Offerwise revelou que 63% dos trabalhadores ainda exercem suas funções presencialmente, mas 37% mantêm alguma forma de atividade remota.
Os motivos que sustentam a continuidade do home office incluem:
- Flexibilidade de horário e possibilidade de conciliar vida pessoal e profissional.
- Redução de custos com transporte e alimentação fora de casa.
- Maior autonomia na organização do ambiente de trabalho.
- Capacidade de recrutamento mais amplo, sem restrição geográfica.
Entretanto, a oferta de vagas 100% remotas tem diminuído nos últimos anos, conforme dados da plataforma de recrutamento Gupy, que registrou um crescimento de oportunidades híbridas e presenciais.
Desafios e custos do deslocamento
O retorno ao escritório traz à tona questões que foram minimizadas durante a pandemia, sobretudo o tempo e o dinheiro gastos com deslocamento. A pesquisa da WeWork indica que 65% dos trabalhadores consideram o trajeto até o local de trabalho a principal desvantagem do modelo presencial.
Além do tempo perdido em trânsito, os custos financeiros – combustível, tarifas de transporte público, manutenção de veículos – aumentam significativamente. Beatriz Kawakami, gerente de negócios da WeWork Brasil, descreve esse fenômeno como um “custo silencioso”, que impacta a renda disponível e diminui o tempo livre para atividades pessoais.
Os principais fatores citados pelos gestores para incentivar a presença física incluem:
- Integração de equipes e fortalecimento da cultura corporativa.
- Comunicação mais ágil e redução de mal‑entendidos.
- Facilidade na supervisão de processos críticos.
- Estímulo à inovação por meio de trocas espontâneas.
Apesar desses argumentos, a discussão sobre o modelo ideal ainda está em aberto. Muitos especialistas sugerem que o futuro do trabalho no Brasil será híbrido, combinando os benefícios do contato presencial com a flexibilidade do home office.
Em síntese, os novos dados do IBGE revelam um cenário de transição: o home office não desapareceu, mas perdeu parte de seu espaço conquistado durante a crise sanitária. Ao mesmo tempo, a volta ao escritório traz à tona desafios logísticos e financeiros que exigem soluções criativas por parte de empresas e trabalhadores.








