Em 2024, durante um seminário sobre Cidades Inteligentes em Pequim, foi revelado como a presença chinesa está remodelando a paisagem urbana e rural do Brasil. O evento, transmitido ao vivo para jornalistas brasileiros, mostrou que a parceria vai muito além da sombra de uma árvore de chá plantada no Jardim Botânico do Rio de Janeiro em 1812.
A história da árvore de chá e o ponto de partida da cooperação
A árvore centenária, ainda viva no Jardim Botânico, simboliza o primeiro contato entre os dois países. Em 1812, imigrantes chineses trouxeram mudas de Camellia sinensis, marcando o início de uma relação que hoje se estende a portos, linhas de transmissão e campos agrícolas.
No encerramento da última aula do seminário, a imagem da planta foi usada como metáfora para o crescimento exponencial das trocas comerciais e de infraestrutura entre China e Brasil. O relato destacou que a iniciativa chinesa de Cinturão e Rota, lançada em 2013, tem sido o motor das novas conexões.
Investimentos chineses em energia, transporte e logística
Os projetos chineses no Brasil abrangem diferentes setores estratégicos. Na rede elétrica, a estatal State Grid opera as linhas de transmissão Belo Monte I e II, que levam energia de regiões remotas para grandes centros consumidores.
Nos portos, o conglomerado COFCO avança com a construção do terminal STS11 em Santos, destinado a acelerar a exportação de grãos e outros produtos agrícolas. Já nas cidades, empresas chinesas fornecem composições de metrô que já circulam em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro.
A ponte Salvador–Itaparica, na Bahia, também conta com participação chinesa, prometendo reduzir a distância percorrida por cargas entre os dois estados. Embora os benefícios ainda sejam projetados, a obra ilustra a ambição de integrar regiões distantes por meio de infraestrutura de ponta.
- State Grid – linhas de transmissão Belo Monte I e II
- COFCO – terminal STS11 em Santos
- Empresas de metrô – composições operacionais em São Paulo e Rio
- Ponte Salvador–Itaparica – conexão estratégica na Bahia
Essas iniciativas mostram que a inteligência das cidades não está apenas nos dispositivos digitais, mas nas decisões de planejamento e contratação que garantem a operação de sistemas críticos por décadas.
Impactos regionais, cifras bilionárias e perspectivas futuras
Os números apresentados no seminário foram impressionantes: o comércio bilateral saltou de US$ 261,57 bilhões em 2013 para US$ 565,28 bilhões em 2025, consolidando a China como principal destino das exportações brasileiras. Esse volume explica o interesse chinês em investir em rotas de transporte e em infraestrutura que facilitem o fluxo de mercadorias.
Entretanto, as cifras não revelam quem realmente se beneficia de cada obra. Em Apodi, interior do Rio Grande do Norte, um projeto piloto de máquinas agrícolas chinesas aumentou a produtividade de alface e coentro em até sete vezes, elevando a renda dos agricultores em quase 80 %.
Essa experiência demonstra que a cooperação pode gerar resultados concretos também em escala menor, longe dos grandes canteiros de obras. A parceria entre agricultores locais e a Universidade Agrícola da China está transformando a realidade rural, oferecendo um modelo replicável para outras regiões.
Para os próximos anos, a China sinaliza a continuação e ampliação desses investimentos, com foco em energia renovável, logística portuária e tecnologias de mobilidade urbana. O desafio, porém, será garantir que os benefícios sejam distribuídos de forma equitativa, equilibrando o desenvolvimento das grandes metrópoles com o crescimento das áreas interioranas.








