A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas se reúne pela 81ª vez nesta terça‑feira, em Nova York, enquanto a instituição lida com cortes de financiamento, a retirada de apoio dos Estados Unidos e uma profunda crise de confiança internacional.
O encontro ocorre em meio a tensões geradas pela guerra iniciada em fevereiro de 2025 entre Estados Unidos, Israel e Irã, que ampliam as críticas à eficácia do organismo composto por 193 países.
Retirada dos EUA e o impacto nos recursos da ONU
Desde que o presidente Donald Trump assumiu a agenda de redução de custos, os Estados Unidos abandonaram 31 agências e programas das Nações Unidas, alegando ineficiência e buscando substituir o sistema por um Conselho da Paz que nunca chegou a se concretizar.
Em resposta, a ONU recebeu um pagamento pontual de US$ 725 milhões, mas ainda registra um débito de US$ 1,312 bilhão por parte dos EUA, comprometendo o orçamento geral da instituição.
Esses números desencadearam uma série de medidas de contenção: o quadro de funcionários sofreu uma redução de 19%, missões de paz foram encolhidas e cerca de 13 mil militares foram repatriados para seus países de origem.
- Redução de 19% no efetivo permanente;
- Cancelamento de 12 projetos humanitários de grande escala;
- Repatriação de 13 mil soldados de missões de paz.
O secretário‑geral António Guterres alertou duas vezes este ano sobre o risco iminente de colapso financeiro, ressaltando que a falta de pagamento dos EUA coloca em risco a própria sustentabilidade das operações de paz e ajuda humanitária.
Retórica de Trump e as reações dos aliados
No discurso proferido após o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, Trump tentou retomar a agenda de pressão econômica, citando possíveis tarifas e criticando aliados que não apoiaram sua política contra o Irã.
No entanto, países como o Canadá já buscaram alternativas, aderindo como membro associado à União Europeia, afastando‑se da ideia de serem meros satélites dos EUA.
Essa mudança de postura impulsionou a criação de um novo bloco diplomático denominado Parceiros pelo Multilateralismo (P4M), anunciado por líderes europeus, africanos e norte‑americanos, com o objetivo de promover reformas dentro da ONU e de outras instituições internacionais.
- António Costa (Conselho Europeu);
- Lula (Brasil);
- William Ruto (Quênia);
- Mark Carney (Canadá).
O P4M propõe atualizar o sistema multilateral para refletir as realidades geopolíticas atuais, mantendo os princípios da Carta das Nações Unidas, mas exigindo maior representatividade e transparência nas decisões de alto nível.
Crise de liderança no Conselho de Segurança
A sucessão do secretário‑geral, que termina seu mandato de dez anos em dezembro, tornou‑se outro ponto crítico. Três votações informais não conseguiram produzir um consenso, evidenciando a paralisia institucional.
A escolha do próximo líder depende do apoio conjunto de Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin, os três dos cinco membros permanentes com poder de veto. Até o momento, nenhum candidato recebeu o aval necessário.
Essa situação evidencia como a dinâmica de poder no Conselho de Segurança pode bloquear decisões estratégicas, afetando a capacidade da ONU de responder a crises globais com agilidade.
Perspectivas para o futuro da ONU
Especialistas apontam que, sem reformas estruturais, a ONU corre o risco de se tornar um órgão simbólico, incapaz de lidar com conflitos contemporâneos como a guerra no Oriente Médio, as mudanças climáticas e as crises migratórias.
Algumas propostas incluem a ampliação do número de membros permanentes no Conselho de Segurança, a criação de mecanismos de financiamento mais estáveis e a introdução de auditorias independentes para garantir a transparência dos gastos.
Ao mesmo tempo, a sociedade civil e organizações não‑governamentais têm intensificado campanhas de pressão para que os países membros cumpram suas obrigações financeiras e reforcem o apoio às missões de paz.
O futuro da ONU, portanto, dependerá de um delicado equilíbrio entre a vontade política dos grandes poderes, a capacidade de mobilização dos países menores e a pressão crescente da opinião pública global por um organismo mais eficaz e responsável.








